Nota do Diretor

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As primeiras lembranças de contato com o preconceito latente, porém velado, no Brasil jamais abandonaram minha trajetória como cidadão e como cineasta.

Hoje ainda sinto, como senti na época em que estudei em uma escola pública durante parte da minha infância, a indignação e o estranhamento diante de manifestações ora sutis, ora descaradas de descriminação em relação aos meus colegas fosse por sua origem, fosse pela cor de sua pele.

Tentando entender meu país, a formação do povo brasileiro e as razões do abismo de oportunidades entre ricos e pobres, me lancei em vários inventários.

Dirigi séries e filmes sobre nossa música, dança, religiosidade, linguagem, sobre o universo indígena, sobre a floresta Amazônica.

Durante esta trajetória de mais de 20 anos de investigação encontrei muitas respostas. Mas o comportamento das elites em relação à infância pobre e o racismo impregnado em nosso cotidiano de forma tão natural quanto nociva ainda estavam na extensa lista de pesquisa. Durante a produção de mais uma série que se dedicava a estudar a história do Brasil, tive contato com o trabalho do historiador Sidney Aguilar.

Quando vi uma foto dos tijolos marcados com a suástica, senti o mesmo desconforto que sentia ao presenciar as manifestações de preconceito na escola.

Qual não foi meu entusiasmo – e perplexidade, claro – ao perceber que por trás daqueles tijolos estariam muitas respostas para minhas perguntas.

Entendendo a situação a qual os meninos órfãos foram submetidos, entendendo como a naturalização do preconceito nasceu de uma política de estado perversa, conclui que ali, em meio àquelas histórias de abandono, maus tratos, desvalorização da infância e desmandos em relação a vida de cidadãos que deveriam estar sob a tutela cuidadosa do Estado, havia uma oportunidade de finalmente falar sobre algo que me marcara pra sempre: o racismo à brasileira.

Essa forma tão peculiar de racismo que tomou forma no Brasil graças a nossa incensada cordialidade, mas incoerente com a miscigenação que dá origem à nossa população.

Eu já estava fascinado pela história e pela chance de fazer um filme que ajudasse o Brasil a se conhecer melhor. Mas, uma vez dentro do projeto e já participando das investigações, encontramos outro sobrevivente, Seu Argemiro, com uma história de vida igualmente fascinante, uma verdadeira metáfora de como o Brasil joga para debaixo do tapete suas lembranças mais doloridas.

Conversei muito com Seu Aloísio e nele enxerguei a revolta, o ressentimento, outro tipo de impacto gerado pela experiência na Cruzeiro do Sul.

José Alves de Almeida, conhecido como 2, infelizmente não sobreviveu para contar sua história. Mas essa sim seria digna de um romance.

Até sua morte ele jamais se desvinculou da família que o levou para Campina do Monte Alegre, nutrindo igualmente sentimentos de amor e ódio. Nesse momento percebi que estava lidando com muito mais do que imaginava e, o melhor, eu tinha em minhas mãos testemunhas marcadas pela história.

Eu tinha um filme de personagens que me ajudariam a lidar com questões universais.